Radar  /  Edição 03  /  18 de agosto de 2026

Apertada por todos os lados — e a folga veio por lei

Oferta global recorde, China e UE fechando a carne, juro a 14% e recuperação judicial em alta. O único alívio da semana coube ao Congresso.

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Mercado · Oferta e demanda

Oferta cheia lá fora, porta se fechando na carne

Mais grão no mundo e menos espaço para a proteína brasileira: os dois lados da balança pressionando a receita da 26/27.

Exhibit 1
Exhibit 1

O USDA elevou a produção mundial de soja 2026/27 para 442,25 milhões de toneladas, alta de 3,0% sobre a safra anterior, com o Brasil em 186 milhões (mais 6 Mt). O estoque global ficou praticamente estável (124,21 Mt) e o consumo subiu 2,9% — o que segura o piso —, mas a oferta recorde tira força de qualquer recuperação relevante do preço do grão.

Na proteína, o quadro é o inverso, e mais tenso. A China já consumiu cerca de 90% da cota de importação de 2026 (1,106 milhão de toneladas), com sobretaxa de 55% sobre o excedente. Ao mesmo tempo, a União Europeia suspende, a partir de 3 de setembro, habilitações de estabelecimentos brasileiros de carne bovina, frango, equina, pescado, mel e tripas.

O efeito já aparece nos embarques: a carne bovina começou agosto 18,0% abaixo de 2025. Para a receita da safra, é um duplo aperto — o grão sem prêmio de preço e a proteína sem o espaço de exportação que sustentava a margem no segundo semestre.

Caixa · Custo e crédito

O caixa aperta antes do plantio

Juro alto, adubo caro e a fila da recuperação judicial crescendo — o custeio da 26/27 nasce sob pressão.

Exhibit 2
Exhibit 2

O sinal mais duro veio da Serasa Experian: os pedidos de recuperação judicial no agro somaram 474 no primeiro trimestre de 2026, alta de 21,9% sobre um ano antes. O detalhe pesa — o produtor pessoa jurídica saltou 73,5% (de 113 para 196 pedidos), enquanto o pessoa física recuou 6,7%. A soja lidera, com 137 pedidos. É crédito seletivo e custo alto virando insolvência.

O juro ajuda a explicar. O Copom cortou a Selic para 14,00% ao ano — o quarto corte seguido —, mas a ata sinaliza juros altos por mais tempo, com IPCA de 4,44% em 12 meses. Para quem depende de crédito de mercado ou carrega estoque, 14% ainda é caro.

E o insumo não alivia. A ureia — maior fatia do custeio da soja — chegou perto de US$ 800 por tonelada no pico de 2026, e o produtor está descoberto: cerca de 30% da safra travada. Relação de troca pior é margem menor antes mesmo de plantar.

Política · O alívio da semana

A folga veio por lei — mas não para esta safra

O Senado aprovou o Profert. O alívio é real; a leitura precisa ser precisa.

O Senado aprovou o Profert (PL 699/2023), que cria até R$ 10 bilhões em crédito fiscal entre 2027 e 2031 — teto de R$ 2 bilhões por ano, com saldo transferível entre exercícios — para quem produzir fertilizante em território nacional. O texto seguiu para sanção. O alvo é o gargalo mais persistente do custo da safra: o país importa mais de 80% do fertilizante que consome, sobretudo de Rússia e China.

É atualização direta do que o Radar vinha acompanhando — na edição anterior, o Profert ainda tramitava. Mas a natureza do alívio precisa ser lida com precisão: o incentivo só corre a partir de 2027 e depende de fábrica instalada. Não muda o preço do adubo da 26/27, que está sendo comprado agora. O Profert ataca a dependência estrutural; não ataca esta safra.

Também na semana

  • Milho global. O WASDE cortou o estoque mundial 2026/27 para 274,66 Mt (−8,1%) — contraponto altista ao grão USDA
  • Diesel. A média travou em R$ 6,94/litro, ante o pico de R$ 7,24 em maio — custo de plantio e frete sob pressão. ANP ANP
  • Frango. As exportações de julho subiram 29,9% em volume e 34,3% em receita — o respiro da proteína ABPA
  • Crédito subsidiado. O aprovou R$ 7,1 bi do Plano Safra em oito dias, 72% via cooperativas. BNDES BNDES

A leitura do MFM Advisor

Cercada por fora, a margem se decide dentro

Quando oferta, demanda, juro e câmbio jogam contra ao mesmo tempo, a margem 26/27 se decide no que ainda é controlável.

A semana desenha um cerco: oferta mundial recorde tira o prêmio do grão, China e UE apertam a proteína, o juro segue em 14% e a recuperação judicial avança. Nada disso o produtor controla — e o único movimento a favor, o Profert, é de médio prazo.

Nesse quadro, a margem não se ganha no preço; se defende no calendário e na disciplina — travar insumo na janela certa, medir a exposição de clima e de crédito, decidir com dado e não com impressão. O produtor que entra em recuperação judicial raramente quebrou na lavoura: quebrou no fluxo de caixa e no timing. É aí que a diferença se faz.

As próximas edições acompanham três termômetros: o repasse da oferta recorde ao preço da soja, a corrida por novos destinos para a carne e o ritmo da recuperação judicial no agro.

Sobre

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